História da Psicanálise

Como surgiu a Psicanálise?


O nascimento da psicanálise está intrinsecamente ligado a histeria e aos nomes de Joseph Breuer e, sobretudo, Sigmund Freud. Ao ter contato com o método criado por Breuer para tratar jovens histéricas e apropriar-se deste, aperfeiçoando-o, Sigmund Freud começa a criar uma teoria baseada em sua observação clínica com essas jovens, a psicanálise. Ele percebe que os sintomas histéricos são resíduos e símbolos mnêmicos de experiências traumáticas ligadas a sexualidade infantil, embora estes não sejam lembrados por suas pacientes histéricas. Freud, então, passa a pensar a existência de uma instância psíquica que não seja consciente, onde estejam guardadas todas as experiências pelas quais o indivíduo passou; e é a partir de suas considerações sobre a histeria e o incosciente que vai surgir e se consolidar sua teoria psicanalítica.

Ao longo de nossas postagens, percorreremos passo-a-passo o percurso de Freud e tentaremos fazer um rápido apanhado sobre suas "principais" teorias, espero que gostem. ^^

Referência Bibliográfica:

JORGE, M. A. Coutinho, 1952 - Freud, criador da psicanálise. / Marco Antonio Coutinho Jorge, Nadiá Paulo Frreira. – Rio de Janeiro: Jorge Zarar. Ed., 2002; 



A Vida de  Freud e a Criação da Psicanálise 


Freud nasceu em 1856, em Freiberg (Morávia), local que atualmente pertence a Checoslováquia. Foi o primeiro filho do segundo casamento de seu pai, Jacob Freud, um próspero comerciante, que teve mais sete filhos com sua mãe, Amalie Nathanson. Aos 4 anos, Freud mudou-se com sua família para Viena, onde cursou todos os seus graus de instrução. Freud era o favorito de seus pais, sua mãe acreditava que ele seria um grande homem, seu pai deu-lhe a chance de escolher a carreira que quisesse seguir, mesmo com a pouca condição econômica da família. Em 1973, por influência dos trabalhos de Darwin, que, segundo Freud, prometiam progresso para a compreensão do mundo, optou por estudar medicina. Ao entrar na universidade sofreu muito preconceito por ser judeu, o que lhe ajudou a acostumar-se desde cedo a “figurar na oposição”.

 Casa onde Freud nasceu, em Freiberg (Morávia)


Freud aos 8 anos, ao lado de seu pai, Jacob, em Viena
Freud, aos 16 anos, ao lado de sua mãe, Amália

Entretanto, os estudos de medicina, com exceção da psiquiatria, não o atraiam; por isso, atrasou-se no curso e só veio a formar-se 8 anos depois, em 1881. Freud interessava-se particularmente por fisiologia e neurologia; queria ser um homem da ciência, não um médico. Freud trabalhou no laboratório universitário de fisiologia com Brucke, mas, por problemas financeiros, teve que começar a praticar a medicina. Freud ainda teve que passar por um prolongado período de formação em medicina clínica antes de iniciar sua prática privada. Em 1883, trabalhou durante cinco meses em uma clínica psiquiátrica com Theodor Meynert. Em 1884, Freud começa a pesquisar sobre os efeitos da cocaína, mas acaba encerrando rapidamente sua pesquisa para ir visitar a noiva, Martha, que não via a um certo tempo. Aproveitando a viagem do colega de trabalho, Carl Koller declarou ser o verdadeiro descobridor dos efeitos da cocaína, tirando o mérito de Freud. Em 1885, foi-lhe conferido um cargo de docente em neurologia. Logo depois, Brucke conseguiu-lhe uma bolsa de estudos em Paris.



Freud e Martha Bernays em 1885, um ano antes do seu casamento


Charcot

Durante boa parte do tempo em que ficou em Paris, Freud trabalhou como tradutor das Conferências de Charcot, um neurólogo de fama mundial, que estava estudando sobre a histeria. Este acreditava que a histeria não se tratava de uma enfermidade imaginária, como os médicos da época afirmavam, mas, sim, de uma neurose; acreditava ainda que esta neurose não era restrita ao público feminino, como a própria origem do nome histeria (hystera – útero) indicava. Entretanto, Charcot não se interessou em prosseguir com seus estudos sobre o tema referido, contentou-se em dizer que a histeria não tinha causas anatômicas, portanto, seus estudos não cabiam a ele, pois não faziam parte de seu campo teórico.

Em 1886, Freud estabeleceu-se em Viena como neurologista e casou-se com Martha. Tão logo voltou a Viena, Freud decidiu apresentar as idéias de Charcot acerca da histeria masculina a Sociedade de Medicina de Viena, mas os médicos vienenses não deram crédito a suas palavras, desafiando-o a encontrar casos de histeria masculina em Viena. Freud tentou provar suas idéias, mas foi-lhe vetada a chance de trabalhar com os enfermos do hospital. Foi, então, que Freud começou a exercer sua clínica privada, onde conseguiu seu primeiro caso de histeria masculina.


Breuer

Como queria fazer mais estudos a cerca da histeria, precisava oferecer algum tipo de benefício a seus pacientes; foi quando começou a utilizar a hipnose como método de tratamento. Breuer, antes mesmo de Freud viajar a Paris, já havia-lhe relatado sobre o caso de uma paciente histérica a qual tratou, o famoso caso Ana O.. Neste caso, Breuer havia conseguido eliminar alguns sintomas histéricos de Ana pelo método catártico, que consistia em revelar a paciente sobre o que ela havia dito quando estava em transe, uma espécie de estado hipnótico, pedindo-lhe que a partir daquele relato ela lhe contasse a respeito de suas alucinações; a rememoração de uma situação traumática era responsável pela eliminação de seu sintoma correspondente. Freud havia mencionado o caso relatado por Breuer a Charcot, mas este não demonstrou interesse pelo assunto.

Freud só veio usar o método catártico em 1889, quando começou a utilizar a hipnose não só para, através da sugestão, suprimir os sintomas histéricos, mas para descobrir quais suas causas, qual a origem destes sintomas. Freud sempre convidava Breuer a publicar a respeito de suas descobertas sobre a origem dos sintomas histéricos, mas este sempre exitava; somente em 1895 é que Freud e Breuer vieram a publicar suas idéias, na obra intitulada Estudos Sobre a Histeria. Entre essas idéias estava a de que a origem da histeria está ligada a lembranças traumáticas da vida da pessoa; estas lembranças teriam sido reprimidas por algum mecanismo do plano inconsciente da vida mental, deixando a carga de afeto ligada a ela sufocada e, consequentemente, causando os sintomas histéricos; a liberação desta carga emocional pela rememoração da cena traumática resultaria no desaparecimento do sintoma correspondente.

Mas Freud não se deu por satisfeito com essas descobertas, ele não acreditava que os sintomas histéricos eram originados de qualquer cena desagradável; percebeu que estas cenas traumáticas estavam ligadas à sexualidade; idéia que Breuer não aceitou, fato que causou a separação dos dois.

 O famoso divã analítico de Freud

Depois de um certo tempo, Freud decide abandonar o hipnotismo, pois muitos de seus pacientes não se deixavam serem hipnotizados; além disso, a “cura” dos sintomas histéricos por este método era apenas temporária, pois logo apareciam outros sintomas. O novo método utilizado por Freud era o da associação livre, que consistia em, permanecendo com o paciente deitado num divã, fazê-lo concentrar-se o máximo possível, e pedir-lhe que relatasse tudo o que lhe viesse a mente, por mais sem importância ou sem sentido que lhe parecesse, tudo deveria ser relatado ao analista. Através deste método, Freud conseguia fazer seus pacientes lembrarem, com certa resistência, das várias cenas traumáticas que estariam na origem de seus sintomas neuróticos. A resistência apresentada desta vez, para tratar de assuntos ligados a sexualidade, só reforçou a teoria de Freud sobre etiologia sexual das neuroses.

 Freud com seu amigo Fliess

Em 1893 Freud começou sua importante correspondência com Wilhelm Fliess, um otorrinolaringologista de Berlim, que conhecera em 1887, através de Breuer. A amizade com Wilhem Fliess foi muito importante para Freud, pois aquele representava para este o Único Outro. Durante uma década Freud correspondeu-se com Fliess, contando-lhe sobre seus sentimentos e inseguranças quanto a suas novas idéias, já que fizera um grande “mergulho dentro de si mesmo” para escrever “A Interpretação dos Sonhos” (1900), obra que inaugura a psicanálise. Sua correspondência com Fliess encontra-se atualmente reunida sob o nome de “O Nascimento da Psicanálise”.

Em 1898 Freud realiza sua conferência sobre “A Sexualidade e a etiologia das neuroses”; em 1989, publica “A Interpretação dos Sonhos”, que é datada, a pedido dele mesmo, de 1900, para “abrir o século”. Em 1901 Freud publica “Psicopatologia da Vida Cotidiana” e “Sobre os Sonhos”. Em 1902 é criada a primeira sociedade psicanalítica do mundo, em Viena, a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras. Em 1903 Freud começa a analisar um garoto de 5 anos, sua primeira experiência analítica com crianças. Em 1905 publica “Três Ensaios Sobre a Sexualidade” e “Os chistes e sua relação com o inconsciente”; conhece Jung e no ano seguinte começa uma longa correspondência com ele. Este foi o discípulo predileto de Freud, que o considerava como um filho e no qual depositava a confiança de continuar seu trabalho. Jung veio a ganhar tal importância para Freud porque, além de muito inteligente e esperto, não era judeu e Freud temia que o avanço da psicanálise fosse ameaçado pelo anti-semitismo.

Freud e o Comitê

De 1895, quando rompeu com Breuer, até 1907, Freud trabalhou isolado e sozinho pela psicanálise; a partir de então, contou com importantes contribuições de seus discípulos e colaboradores. Em 1909 Freud publica “Análise de uma fobia em um menino de cinco anos” (Pequeno Hans), “Notas sobre um caso de neurose obsessiva” (Homem dos Ratos; em 1912, publica “Totem e tabu”. Em 1913 começa o conflito entre Freud e Jung, quando este tentou retirar a sexualidade do centro da teoria freudiana; tempo depois Jung abandonará a psicanálise para construir sua própria teoria. Em 1915 Freud escreve os artigos sobre metapsicologia “As pulsões e suas vicissitudes” e “Recalque”. Em 1918 Freud publica “História de uma neurose infantil” (Homem dos Lobos). Em 1920 é publicado “Mais-além do princípio do prazer”; em 1921, “Psicologia das massas e análise do eu”; em 1922, “O eu e o Isso”. Em 1927 Freud escreve “Fetichismo” e “O futuro de uma ilusão”; em 1928, “O mal-estar na cultura” (O mal-estar na civilização). Em 1939 é publicado “Moisés e o Monoteísmo”.

 Freud com sua filha Ana, nas férias de verão de 1913

Freud com dois de seus seis filhos, Ernest e Martin

Freud com seu netos Heinz, à esquerda, e Ernst Halberstadt, os dois  filhos de Sophie.

Em 1922 Freud descobre que tem câncer na mandíbula, o que o levou a fazer 33 cirurgias. Em 1930, Freud, adoentado, através de Anna, sua filha e representante, recebe o prêmio Goethe (de literatura), única premiação que lhe foi conferida em vida. De 1933 a 1939 há um grande avanço do anti-semitismo na Alemanha e a psicanálise é considerada uma ciência judaica; os livros de Freud são queimados na em praça pública. Em 1938, em meio a ascensão do nazismo, a princesa Marie Bonaparte, graças a seu prestígio, consegue levar Freud, com sua esposa e filhos, para Londres. Freud definha frente a seu câncer mandibular, e, em 23 de setembro de 1939, falece; Freud viveu 83 anos.

Referências Bibliográficas:

JORGE, M. A. Coutinho, 1952 - Freud, criador da psicanálise. / Marco Antonio Coutinho Jorge, Nadiá Paulo Frreira. – Rio de Janeiro: Jorge Zarar. Ed., 2002;

APPIGNANESI, R. e ZÁRATE, O. Freud para Principiantes. Buenos Aires: Era Naciente SRL, 2002

CLARET, M. FREUD, por ele mesmo. Coleção: O Autor por ele mesmo. Martin Claret: São Paulo.

Fundamentos Freud - http://fundamentosfreud.vilabol.uol.com.br/cronologia.html  



Charcot



Uma enumeração das contribuições isoladas de Charcot não nos capacitaria a demonstrar sua importância para a neuropatologia, pois durante as duas últimas décadas não houve tema, qualquer que fosse sua importância, em cuja formulação e discussão a escola do Salpêtrière não tivesse uma significativa participação; e a “escola do Salpêtrière” era, naturalmente, o próprio Charcot, que, com a riqueza de sua experiência, a transparente clareza de suas exposições e a plasticidade de suas descrições, era facilmente reconhecível em todas as publicações da escola. (FREUD - 1893, p.24 e 25)

De outubro de 1985 a fevereiro de 1886, Freud trabalhou com Charcot, na Salpêtrière, em Paris. Não podemos deixar de mencionar a importância que Charcot teve na vida de Freud, o próprio obituário que este escreveu sobre aquele, poucos dias após sua morte, em 1893, demonstra a grande admiração que Freud tinha por seu mestre. Sem dúvida, o contato de Freud com as idéias de Charcot foi bastante frutífero e importantíssimo para que nosso criador da psicanálise transferisse seu interesse da neuropatologia para a psicopatologia. A forma como Charcot tratava seus pacientes histéricos foi ponto crucial para que Freud começasse a caminhar em direção a criação de sua metapsicologia.

 Charcot apresentando doentes na Salpêtrière

Na época de Charcot, a histeria era a mais enigmática de todas as doenças nervosas, e, não só os pacientes histéricos, como, também, os médicos que se interessavam por tratá-la, eram desacreditados.  Charcot contribuiu decisivamente para reversão deste quadro, restaurando a dignidade de seus pacientes, ouvindo-os e encarando a histeria como mais um tópico da neuropatologia.

Ele tratou a histeria como sendo apenas mais um tópico da neuropatologia; forneceu uma descrição completa de seus fenômenos, demonstrou que estes tinham suas próprias leis e regularidades, e mostrou como reconhecer os sintomas que possibilitaram o diagnóstico da histeria. (FREUD - 1893, p. 29)
Fotos de histéricas atendidas na Salpêtrière

Charcot propôs que a causa única da histeria seria a hereditariedade, o que Freud veio a discordar mais tarde. Sem dúvida, o mais importante para Freud foi quando Charcot, recorrendo ao hipnotismo, forneceu a primeira explicação para a histeria.

Enquanto estava empenhado nos estudos das paralisias histéricas decorrentes de traumas, teve a idéia de reproduzir artificialmente essas paralisias, que antes diferenciara das orgânicas com todo cuidado. (...) Teve êxito em provar, através de uma sólida cadeia de argumentos, que essas paralisias eram o resultado de idéias que tinham dominado o cérebro do paciente em momentos de disposição especial. Desse modo, o mecanismo do fenômeno histérico foi explicado pela primeira vez. (FREUD - 1893, p. 31)

Acompanhando as obras de Freud, podemos perceber a influência decisiva desta explicação de Charcot. Durante muito tempo Freud utilizou o hipnotismo, não só para criar sintomas histéricos, mas para desfazê-los; além disso, foi a partir da teoria do trauma que Freud descobriu a etiologia sexual das neuroses, ponto de partida para o desenvolvimento de sua metapsicologia.

Referência Bibliográfica:

FREUD, Sigmund (1893 – 1899). Primeiras Publicações Psicanalíticas. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Imago: Rio de Janeiro, 1996;

3 comentários:

Demetrio Alexandre Guimarães disse...

Parabéns pelo blog!

Thayná disse...

Muito bom o blog, parabéns!

Poderia me ajudar em um dúvida? Gostaria de saber um pouco mais a fundo sobre as histerias alcoólicas e saturninas. Causas, tratamentos, etc. Sei que as histerias são causadas através de desejos reprimidos no passado, mas qual seria a ligação entre alcoolismo/saturnismo com desejos reprimidos? Obrigada!

eliane soares disse...

Ótimo muito bem explicando parabéns

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